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É carnaval, é folia. Saudades de outrora!

Professor Marcondes Serra

Por Marcondes Serra


É carnaval, é folia. Saudades de outrora!


Tudo acaba, tudo muda, tudo passa e com toda natural razão, pois esta é a lei suprema do universo! E a ocorrência e avanço dessas mudanças tem a conduta humana como resultado inelutavelmente óbvio, embora haja preservações, resistências, discussões, condenações, reprimendas e até castigos, quando os dependentes desobedientes incursionam nas situações dessa tal modernidade, ferem princípios tradicionais, autoridades familiares ou outras formas de preservação dos mais essenciais valores, em decadente ascensão. Isto também é aceitavelmente natural. 

Os inventos, a tecnologia sempre exerceu enorme influência sobre a conduta humana e, em paralelo com os fenômenos naturais, tornam-se as grandes causas das inevitáveis mudanças e fim de tudo. Assim se tem vivido e observado as lições da vida!

Tudo acaba, tudo muda, tudo passa e o Carnaval também mudou. Sou saudosista dos Carnavais de rua e bailes no Clube dos Jovens, com salão enfeitado e colorido, foliões animados, uns envergando vaidosamente suas fantasias, a maioria em trajes bem esportivos, descontraídos, coloridos, apropriados, levando a alegria esfuziante para o meio da pista. Aquilo sim era “carnaval” – entusiasmo, euforia, confetes e serpentinas. E o bom já começava pela expectativa imaginativa das brincadeiras, das festas animadas pelas marchinhas, do “cheirinho do rodó” de tão poucos privilegiados, das cervejinhas geladas, da cachacinha, da caipirinha ou meladinha e demais incentivos etílicos. Hoje, com a mudança, o ânimo para a folia começa mesmo com a ansiedade pela oportunidade facilitada do uso das drogas, permissividade e degradação sexual, confusão e demais desregramentos modernos que muitos jovens, sem nenhuma vergonha ou máscara protetora, expõem aos olhos de todos. Pra que máscaras, se não são “caretas”?

Os três dias de Momo já se estenderam ao início da noite de sexta-feira e vêm sofrendo modificações em sua expressão, perdendo a característica daquele tempo, seguindo a linha da lei suprema do universo, embora poucas pessoas tenham resistido às trocas da forma e dos ritmos, acabaram cedendo totalmente ou em parte, aquietaram-se em melancólicas recordações e pronto: Eis o Carnaval de agora, predominância do axé baiano, como se a Bahia se agigantasse Brasil afora, em sua atração carnavalesca. E como não podem ir a Salvador, improvisam facilmente “uma Salvador” aqui mesmo e tome axé!

Nosso carnaval de rua era peculiarmente expressivo, com diversidade de grupos carnavalescos, organizados com fantasias simples, baratas, originais, batuque acelerado à base de percussão de couro de animais e vozes empolgadas, cantado e brincado, num clima ameno, receptivo, alegre, contagiante, com um estandarte sempre à frente, evoluindo altivo, anunciando a “escola” – diminuta e humilíssima réplica dos carnavais cariocas. Assim foram a “Turma da Mangueira”, Boêmios do Ritmo”, “Salgueiro”, “Asas do Samba” e tantas outras. Não esqueço quando os grupos se encontravam e subiam a empolgação da batida, cantorias do samba e a animação do saracoteado sambista dos passistas. Era pra valer mesmo e o confronto “pegava fogo” sob os incentivos dos líderes aos gritos de “vamos, vamos”! Interessante é que, ao se encontrarem, postavam-se em círculo e confundiam os sons de seus sambas e batucadas. Naquele momento se mostrava “quem era quem”, porque era o instante esperado das “disputas” e nenhuma escola queria perder seu batuque, canto ou dispersar se conjunto brincante, sufocada pela outra. Uma loucura maravilhosa!

Lembro que já tivemos o “Corso de Dona Ivete”, a “Casinha da Roça”, a “Tribo de João Andrade”, os fabulosos blocos do samba de tamborzão “Piratas e Carrossel”, todos foram grupos expressivos e destacados em nossos carnavais de antigamente. Tínhamos foliões que brincavam e esbaldavam-se sozinhos, cantando pelas ruas, encaretados de “maizena”, tomando sua bebidinha de bar em bar e Tarquino foi um desses foliões, dentre outros e outras lembranças neste bornal de saudades. Essas criaturas alegres faziam o “Bloco do eu Sozinho” cantando refrãos carnavalescos e deixaram marcas no tempo! 

Vale a pena ressaltar que as confusões eram raras. Eram dias de quebra de alguns perfis e até mesmo de alguns interditos, mas todos seguiam as regras ditadas para o evento, consistentes em não desprezar os direitos estabelecidos, mantendo a paz e a tranquilidade geral. Delegado e policiais eram figuras de grande respeito!

Duas páginas inesquecíveis nos anais de nossas histórias carnavalescas eu preciso citar: aquela que registrou nossa evolução até o “quase nudismo”, em um carro alegórico recheado de mulheres e homens ousadas para a época, usando apenas um “tapa-sexo” - o frisson do ano, que deu muito “o que falar” e a imponência em luxo, originalidade, e estonteante surpresa promovida pela “Mocidade Independente”, bancada por Nato Figueiredo e organizada por mim e meus amigos, com a colaboração de Willame Figueiredo. Foi algo surrealista para São João Batista, verdadeiro fenômeno de um carnaval apenas! 

Nossos hábitos e tradições estão direta e obviamente submissos à realidade do contexto político-sócio-econômico do país, também em constantes mudanças e experimentações. Entendo que a mudança acontecida com o carnaval, seja consequência da evolução e adequação à cultura vigente, permeada pela violência infrene que afeta doridamente a sociedade aqui e alhures.

As Artes e suas manifestações retratam a realidade da época em que acontecem e evidenciam os valores praticados pela sociedade. No período carnavalesco, como nos demais períodos festivos , é aconselhável que se coloquem algumas considerações que possam alertar, disciplinar a conduta coletiva, evitando surpresas e aborrecimentos, pois vivemos uma realidade onde é necessário cuidados para manutenção da segurança, preservando o espírito festivo, brincalhão, característico de nosso povo – nossa gente!

Portanto, longe de criticar, deve haver sim, um cuidado especial, preventivo, um toque de responsabilidade entre todos nós, para que se tenha um carnaval alegre, que não deixe lembranças tristes quando terminar!

Tudo acaba, tudo muda, tudo passa e com toda razão, pois esta é a lei suprema do universo! Estamos em novos tempos, mas que neste carnaval a ingestão de bebidas seja moderada, as transas fáceis aconteçam com preservativos e que as drogas sejam relaxadas e não desvirtuem o senso da boa conduta, cidadania e humanidade!

Que neste carnaval os foliões extravasem toda a alegria e divirtam-se sem comprometer sua segurança e a dos demais, brincando de forma saudável e lembrando que, mesmo em espaço comum, o direito e “espaço” de cada um termina onde começa o do outro, afinal, o RESPEITO é princípio e meio determinante da boa conduta e bom relacionamento social.

Bom Carnaval a todos!

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