Primeiro exilado desde a ditadura, Jean Wyllys abre mão do mandato para não ter de voltar ao Brasil

Após sofrer graves ameaças de morte, o deputado federal Jean Wyllys (PSOL) anunciou nesta quinta-feira (24/1) que abrirá mão do mandato e não voltará ao Brasil, situação que pode ser considerada o primeiro caso de exílio político voluntário após o fim da ditadura militar. O parlamentar vivia sob escolta policial desde o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março do ano passado.

Eleito pela terceira vez consecutiva deputado federal pelo PSOL do Rio de Janeiro, Jean Wyllys, primeiro parlamentar assumidamente gay no Congresso Nacional, se tornou um dos principais defensores das pautas progressistas na política nacional e um dos principais alvos de grupos conservadores e fake news nas redes sociais.

Wyllys já venceu ao menos cinco processos por injúrias, calúnias e difamações divulgadas contra ele, mas com o aumento das ameaças de morte contra ele, decidiu deixar o país para se dedicar à carreira acadêmica. De férias no exterior, revelou que não pretende voltar.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Wyllys afirmou que além da execução por grupos de milícias passou a temer também a possibilidade de um atentado praticado por pessoas fanático religiosas.

“Estava me sentindo inseguro, mesmo com a escolta me acompanhando”, afirmou Wyllys à Folha. “Como é que eu vou viver quatro anos da minha vida dentro de um carro blindado e sobre escolta?”, questiona. “Sou humano e cheguei no meu limite”.

Jean conta que a tomada desta decisão não foi fácil e “implicou em muita dor”, pois envolveu abrir mão da proximidade da família e amigos queridos, além da carreira política.


“O [ex-presidente do Uruguai] Pepe Mujica, quando soube que eu estava ameaçado de morte, falou pra mim: ‘Rapaz, se cuide. Os martires não são heróis’. E é isso: não quero me sacrificar”, disse à Folha. “Para o futuro dessa causa [LGBTI+], eu preciso estar vivo”.

Wyllys afirma que seu partido, o PSOL, reconheceu os riscos que ele corria, por se tratar de um alvo preferencial dos grupos de oposição, e o apoiou em sua decisão de não voltar ao Brasil.

Com a decisão do deputado de não assumir o mandato, quem podem ocupar o lugar de Jean Wyllys na Câmara é o suplente David Miranda (PSOL-RJ), vereador carioca. Ativista LGBT, casado com o jornalista Glenn Greenwald, David é jornalista e vencedor do Prêmio Pullitzer em 2014 por sua reportagem sobre programas de vigilância secretos dos Estados Unidos.

Ameaças e violências

Jean Wyllys conta que já sofria ameaças antes, mas nunca achou que pudessem se concretizar. Entretanto, com a execução de Marielle Franco e a intensificação das ameaças contra ele, percebeu que o risco era real.

O deputado relata que a situação se agravou com as últimas eleições, em grande parte devido às fake news: no período eleitoral, Jean Wyllys foi alvo de diversas notícias falsas, como as relacionadas ao inexistente “kit gay”.

“A Comissão Interamericana de Direitos Humanos emitiu uma medida cautelar logo depois da eleição. O documento é claríssimo: é baseado em todas as denúncias que nós fizemos à Polícia Federal, no fato de que a Polícia Federal não avançou nas investigações sobre as ameaças contra mim. No fato de que a proteção era pífia”, disse em entrevista à Folha, destacando que o Estado brasileiro não reconheceu que havia um quadro de violência motivado por homofóbia no Brasil.

Por fim, lembra o episódio envolvendo a desembargadora Marília Castro Neves:

“A violência contra mim foi banalizada de tal maneira que Marília Castro Neves, Desembargadora do Rio de Janeiro, sugeriu a minha execução num grupo de magistrados no Facebook. Ela disse que era a favor de uma ‘execução profilática’, mas que eu não valeria a bala que me mataria e o pano que limparia a lambança. Na sequência, um dos magistrados falou que eu gostaria de ser executado de costas. E ela respondeu: ‘não, porque a bala é fina’”.

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