Belchior fica como uma canção, um verso

Inicialmente o enterro seria restrito a amigos e familiares, mas cordões de isolamento foram removidos e fás participaram da despedida FOTOS MAURI MELO


Após velório e missas no Centro Dragão do Mar, cantor foi sepultado ontem pela manhã no Parque da Paz. O enterro, que seria fechado para família, acabou sendo aberto aos fãs.

Tal qual Belchior, o frei Ricardo Régis, que celebrou missa de corpo presente do artista, também usa a música para se expressar ao mundo. Com afinidade e emoção, o religioso e cantor destacou herança simbólica deixada pelo poeta cearense. “Ele vai fazer falta para toda a nação. O maior legado que um homem pode deixar para o outro é aquilo de melhor que ele tem, seu dom, expressão e sensibilidade. Antônio Carlos Belchior fica como uma canção, uma palavra, um verso”, se despediu. Após a celebração no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura ontem às 8 horas, o corpo do cantor cearense Belchior foi sepultado, às 10 horas, no cemitério Parque da Paz, no bairro Passaré.

Ao todo, mais de oito mil pessoas passaram pelo velório no equipamento cultural na Praia de Iracema. Já o enterro, que seria a princípio fechado para a família, acabou sendo aberto para amigos e fãs, que acompanharam o artista até o último momento. Com fitas de isolamento retiradas e com acesso aberto para quem quisesse se aproximar, o sepultamento aconteceu no mesmo jazigo onde os pais dele foram enterrados. Entre choros e canções do artista entoadas, muitas palmas partiram entre os cerca de 300 presentes e, assim, o artista se despediu como saía dos palcos: sob aplausos.

Cantor e compositor Bernardo Neto estava presente e puxou o coro de clássicos de autoria de Belchior. “Vai-se o corpo físico e fica a obra por todos os tempos, a canção do Belchior é muito rica. É uma poesia muito transformadora de um cantor que vai ficar para sempre na memória”, se emocionou. As músicas puxadas por ele e outros músicos que também conviveram com o “rapaz latino-americano” foram a marca do velório, da missa e do enterro. Foi um choro cantado com emoção.

“A partir da música dele, da obra, Belchior acompanhou tantos momentos das nossas vidas. A gente constrói um nível de intimidade, sente muito e compartilha essa perda”, afirmou Izolda Cela, vice-governadora do Estado, que esteve na missa. Assim como o compositor, ela é também natural do município de Sobral (232 km de Fortaleza). “Ele é sobralense e, apesar de ter saído muito cedo de lá, lembrava sempre da Cidade, falava das histórias, dos personagens e eu admirava muito isso”, contou Izolda.

Irmão do cantor, Francisco Gilberto prefere entender a morte do artista como mais uma transformação do poeta. “A vida do Belchior se traduziu em mudanças. Do bom aluno que representou a turma como orador no ginásio até o adolescente que tomou a decisão de mudar para ser frade, viu que não era aquilo que ele queria e mudou de novo para ser estudante de Medicina”, rememora. “Depois ele viu que o caminho dele não era aquele e mais uma vez mudou para a música, onde ficou. Agora ele muda e se despede mais uma vez”, completa, mantendo a firmeza. “Mas as músicas ficam, viu?”, confirma, como se fosse preciso ressaltar a permanência de uma poesia que, feito faca, marcou a música brasileira profundamente.

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